Após uma separação é importante que ambos os pais percebam que a criança não se separou, nem se quer separar…
Continua a querer tanto o pai como a mãe e tanto um como o outro são necessários para o desenvolvimento normal e saudável da criança!
É importante que o progenitor que não vive maioritariamente com a criança perceba que, apesar disso, a criança continua a gostar dele como gostava. Muitas vezes ainda sente que gosta mais, porque no dia-a-dia tem que cumprir com regras e mais regras e quando está com o progenitor com o qual não vive, pode fazer algumas coisas que não é comum fazer diariamente (por ex. escolher o que comer, o programa de televisão ou ter prioridade na escolha das brincadeiras), até porque, na maioria das situações, esse período já fica reservado apenas para o tempo passado com a criança.
Por vezes a criança tem tendência para tratar “pior” o progenitor com quem coabita mais… É muitas vezes a sua forma de exteriorizar a revolta que sente, por no seu íntimo querer estar com ambos… Nessa situação não devem ficar zangados com eles.
Muitas vezes o progenitor verbaliza “Então sou eu que tenho o trabalho todo contigo e tu ainda assim tens essa revolta toda contra mim!!!”.
Os pais, nesta situação, devem sim perceber que a criança está perante um momento de sofrimento e sente necessidade de exteriorizar o que sente. Devem dar-lhe aconchego, palavras de compreensão, dizer-lhe mesmo “Eu entendo que estejas triste e revoltado, que não querias esta situação e que te está a ser difícil ultrapassar!”. Se possível permitir-lhe falar com o outro progenitor, telefonar-lhe ou escrever o que está a sentir e depois entregar-lhe, para que ambos possam falar dessa situação e sentimentos…
Se é difícil para os adultos passar por um divórcio, muito mais é para a criança que, para além de não querer o divórcio, ainda não tem desenvolvidas as suas capacidades de defesa!
Quando a criança sente saudades do progenitor que não tem presente, uma forma de lhe diminuir a angústia pode ser contar-lhe que antigamente, os pais de outros meninos iam para a guerra e não existiam telemóveis para poderem comunicar, ou então, tinham de imigrar para outro país e só uma ou duas vezes por ano é que estavam juntos; Outros tinham doenças como a tuberculose e tinham que ficar internados em hospitais, sem poderem ter contactos até se curarem… Estas situações eram difíceis para esses filhos e o período que passavam com os pais era muito mais curto.
Por sua vez, quando surge uma outra relação, existe a tendência, de que a pessoa que entra para a relação se sinta ameaçada. Perante este cenário devem tentar racionalizar: quando iniciaram a relação a criança já existia… Tentem perceber como a criança funciona, ela também merece o seu espaço. Façam-na sentir-se importante e que continua a ser amada! Deixem-na escolher também as actividades que façam conjuntamente, esta criança também tem que ser conquistada… A chegada de outra pessoa não lhe deve ser imposta e se muitas vezes não se sente cómoda, a primeira reacção é a rejeição! Por em prática a inteligência emocional é uma mais-valia: ter a capacidade de negociação. Quando a criança sente que estão a querer conquistá-la, vai-se sentir importante e isso vai facilitar a aproximação. No caso das meninas, pintem-lhe as unhas, por ex, ou brinquem um bocadinho com as bonecas; no caso dos meninos, um jogo de futebol, ou um passeio de bicicleta, ou um jogo de playstation, só a dois, faz milagres…
A criança é um ser indefeso, que quanto mais instável estiver, maior vai ser a sua revolta. Está-lhe a ser alterado o seu padrão de vida e todo este desconhecimento de normas e situações causa-lhe grandes angústias! Por um lado as regras da mãe, por outro lado as regras do pai…; além disso, uma grande parte das pessoas, com pena da criança, tendem a dar o seu palpite e a querer colaborar, o que na maioria das situações ainda complica mais, porque é mais uma visão diferente de analisar a situação… A criança vai sentir-se como ‘uma barata tonta’, sem saber como se orientar. Muitas vezes o reflexo disto são noites consecutivas mal dormidas, com grande dificuldade de concentração nas aulas. A cabeça da criança está a pensar nos problemas e não no que o professor está a falar…; outras crianças ficam sem apetite ou com um apetite muito superior ao normal, dependendo do metabolismo.
Pense em todas estas dificuldades e por muito que lhe esteja a custar passar por essa situação, pense que muito mais está a custar às crianças! Por outro lado, para que a criança se adapte melhor à situação, pode sempre demonstrar-lhe aspectos positivos do divórcio: tem a possibilidade de passar férias com pessoas diferentes, em sítios diferentes, em períodos mais alargados, têm atenção redobrada, conforme esteja com o pai ou com a mãe…
Para bem do normal desenvolvimento da criança é importante que as regras a que está habituada sejam mantidas. Aqui estou a referir-me a crianças mais pequeninas, por exemplo, os horários da refeição da criança, as horas de sono, se está a tentar deixar a fralda e não é dada continuidade a este treino durante um ou dois dias, lavar as mãos antes das refeições, escovar os dentes, etc., etc. A criança é um ser de hábitos e todas estas alterações nas suas rotinas vão causar-lhe grandes momentos de stress e angustias, deixam de ser cumpridos os seus hábitos de rotina diários… Muitas vezes os pais não partilham das mesmas opiniões e têm atitudes completamente antagónicas – quem sofre com a situação é a criança… Já pensou nisso?
Por outro lado não diga à criança aquilo que considera como defeito no outro progenitor, vai fazer com que a criança se sinta constrangida e defensiva. Se a sua intenção era influenciar a criança, não precisa de o fazer! Se o assunto for realmente importante, a criança com o seu normal desenvolvimento vai ter oportunidade de se aperceber, no momento oportuno e numa fase que tenha maturidade de compreensão! Caso contrário, pode estar a abordar um assunto para o qual a criança não tenha ainda maturidade de compreensão, e em vez de a estar a elucidar, está a magoa-la profundamente, além de não estar a aproveitar de uma forma alegre e harmoniosa o tempo que está a passar com o seu filho! Em vez de o estar a ensinar a viver de uma forma alegre e bem-disposta, está a transmitir-lhe uma maneira de estar na vida rancorosa, destrutiva e pouco saudável…
O seu filho é uma criança, deixe-o viver feliz e alegre, desfrutar a sua liberdade de ser criança, sem ter que carregar o peso de problemas e desavenças. Ensine-o a construir um dia a dia agradável e ausente de rancores, para ele poder passar esse momento o melhor possível, sem que fique com grandes marcas da separação. Assim como se aprende a acertar os ponteiros do relógio, quando surge o fim de um casamento também tem que existir uma aprendizagem perante a separação. O desenvolvimento de uma separação que seja funcional, enquanto pais, contribuirá para reforçar a estabilidade dos filhos! Quanto mais harmoniosa for a forma de lidar com as situações, maior vai ser a capacidade de lidar com uma vida nova de uma forma positiva e construtiva!
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